sábado, 11 de julho de 2015

CARTA ABERTA AO TIO RAMIRO-DIÁRIO POPULAR

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BLOG DO PELEGRINI


Faz tempo que não nos vemos. E se te escrevemos, agora, é movido pela urgência e do mais nobre sentimento: o amor. Não sei se somos parentes, mas, filhos da mesma mãe, Valença, e por amor a ela é que o fazemos. A cidade foi tomada de assalto nesta segunda-feira, com a triste notícia que o prédio onde funcionava a sua loja, Casa e Fazenda, mais precisamente, à esquina central da cidade entre a antiga ladeira do porto e a rua Conselheiro Cunha Lopes, irá ao chão. Não só ele, cuja arquitetura remete ao século XIX, estilo neo-clássico, com influências do barroco. Há também um antigo hotel ao seu lado, cuja fachada data de 1936, mas há indícios de ser muito anterior. Pra quem não sabe, esta é uma das ruas mais antigas de Valença. Nela moraram diversos educadores e figuras ilustres, entre elas, o próprio comendador Cunha Lopes. Isso pra não falar da família Vasconcelos Gois, da qual provém Zacarias de Góes, fundador da província do Paraná, onde há uma estátua em sua homenagem e cuja capital prepara as comemorações dos seus 200 anos, agora em 2015. Pra quem também não sabe, o Tio Ramiro também é descendente desta família. A história é longa, com muitas partes ainda a ser pesquisada e vai além do pouco que sabemos.



Estendemo-nos neste preâmbulo, pois é aí que fazemos um paralelo para explicar nosso pedido. Antes, perdoe ainda, mais uma digressão.  Quando vivo, o velho professor Rubem Alves escreveu ao senhor Roberto Marinho algo que queremos repetir:  “o senhor, pelo que me consta, é mais velho do que eu. Meu pai dizia que a vida, até os 60 é de direito. Depois é bonificação. Depois dos 60, todos estamos equidistantes da eternidade.  O senhor já notou que os ipês florescem no inverno? Sabe por que? No inverno, é frio e seco. As árvores ficam com medo de morrer. Por isso produzem flores e ejaculam sementes ao vento. Antes de morrer, um grande orgasmo de cor e beleza.  Querem plantar suas sementes no ventre da mãe-terra. Não seria a hora de fazer como os ipês?”

Explicamos melhor. O senhor talvez seja um dos homens mais poderosos desta terra.  Já foi vereador, presidente da Câmara, prefeito 2 vezes e acumula um patrimônio que assegura não só seu futuro, mas de filhos, netos, sobrinhos e outros próximos a quem mais o senhor ame. Não seria a hora de “plantar” uma semente que orgulharia todos os filhos e filhas da cidade, além de ser exemplar? Dizemos isso, por que és um visionário, empreendedor. Quase um bruxo, que, no popular, tira “leite de pedra”, ou alquimicamente, transforma “pedra em ouro”.


É verdade que este não é o único patrimônio que está sendo destruído em nossa cidade. Vemos, dia-a-dia, outros indo ao chão ou em risco de desabar, cujos donos alegam não poder mantê-los nem restaurá-los. Mas, o senhor, assim como o rei Midas, tudo que toca, vira ouro. É diferente. E informamo-lhe: nos últimos anos a cultura tem sido um bom negócio. Veja os exemplos de Cachoeira, Lençois, Salvador, Parati ou diversas outras cidades.  Há muita gente em nossa cidade disposta a ajudar, a empregar seu tempo e conhecimento. Procure fora, se quiser. Mas informe-se e verá que temos a razão.

Mire-se no exemplo de outros grandes como Roberto Marinho, Odebrescht… que através de suas fundações têm promovido o desenvolvimento, a preservação, a restauração do nosso patrimônio. Apelo para seus sentimentos cristãos, afinal, é possível que o senhor se assuste às vezes com o poder que tem. “A quem muito se deu, muito será cobrado” diz Jesus. É recordando à memória de dona Helena, sua mãe, aquela senhora, a quem carinhosamente chamávamos de vovó e, muitas vezes cruzou a esquina daquele sobrado acompanhando as cerimônias religiosas, que encerramos, fazendo este pedido: paralise imediatamente a derrubada do prédio, preserve a sua fachada e busque apoio. Assim, talvez, o senhor seja, não só lembrado e respeitado pelos valencianos, como amado.

Adriano Pereira de Queiroz – estudante de História (UFRB)


Janete Pereira Vomeri – Presidente do Conselho Municipal de Cultura

Rosângela Góes de Queiroz Figueiredo – Educadora e escritora





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